domingo, 12 de novembro de 2017

Conversas Como as Cerejas



🍒 "As conversas são como as cerejas" 🍒 - ouve-se muito entre nós, portugueses. Também o diz, amiúde, minha mãe, desculpando-se alegremente, com um sorriso cúmplice, quando retém mais uns minutos a atenção dos seus interlocutores. Conversar com prazer deve ser de família. A avó materna também o fazia. Viveu até aos 100, com uma memória prodigiosa👵. Pela via paterna também me chega este "gosto pelas cerejas", já que o Pai Quim era um alegre, inspirado e criativo conversador, com uma popularidade social difícil de igualar 😊. Não sei se herdei algum “gene conversador”, ou “gene das cerejas”, via DNA mitocondrial- aquele que só as mães passam aos filhos- e só as filhas perpetuam- ou se é algo mais profundo, ligado a um segundo cromossoma X 😊.
O mano Tó Mané, quando inspirado, também se entusiasma, palra animadamente e faz rir toda a gente, mas às vezes mandam-no calar (!). Estou solidária com ele. Somos os dois vítimas do “gene da cereja” duplamente herdado. Já o mano Luís Carlos é poupadinho nas palavras, mas muito eficiente no uso que delas faz. Deve ser heterozigótico, com dominância de um gene “zen” sobre o gene da cereja 😊😉🍒.
Seja como for, os “seabras" e "ferreiras” são dados à conversa. Uma boa conversa não tem preço porque nos deixa ser autênticos, sem medo de mostrar quem somos, sem o receio do julgamento, da ofensa, da maledicência, da crítica destrutiva e da rejeição, aspirando à verdadeira comunicação e à construção de algo que nos possa beneficiar a todos. A partilha do conhecimento, experiências, ideias e projectos alarga horizontes e enriquece-nos, estimulando o cérebro curioso, ávido pela novidade e entretenimento, mas também sabedoria. Permite aprender, crescer por dentro, e até reencontrar, através do outro, uma “luz” própria que julgávamos perdida e nos impele a seguir adiante, no caminho único de cada um.
Saber conversar é uma Arte que ainda persigo, pois implica abertura de espírito a ideias eventualmente distintas da nossa, mas não menos merecedoras de discussão. Implica despojarmo-nos de “pré-conceitos” e interesses individualistas, sem perder de vista valores essenciais. Requer que estejamos recetivos, presentes e disponíveis para o outro, sob pena de não existir comunicação e diálogo, mas antes monólogo e ruminações. Sou aprendiz de feiticeira, mas um dia chego lá.
Aqui deixo, assim, a intenção de deixar as conversas florescer como as cerejeiras de Abril, rasgando horizontes de verde e azul. Se estas "cerejas" estimularem a nossa capacidade de pensar de forma criativa, se nos despertarem o desejo de questionar, analisar, compreender, saber e fazer um bocadinho mais e melhor, se enfim acrescentarem alguma felicidade, tal como as cerejas trazem cor e sabor aos dias, então O objectivo Maior do blogue será alcançado: cultivar e multiplicar momentos de felicidade, potenciando atitudes e estados mentais positivos 🍒 😊 🌸.

Cerejeira brava, sobrevivente do coberto vegetal de outros tempos, no terreno de meus pais.
Fotografia de Cristina Ferreira (Abril de 2015).

1 comentário:

  1. A uma cerejeira em flor

    Acordar, ser na manhã de Abril
    a brancura desta cerejeira;
    arder das folhas à raiz,
    dar versos ou florir desta maneira.

    Abrir os braços, acolher nos ramos
    o vento, a luz, ou o quer que seja;
    sentir o tempo, fibra a fibra,
    a tecer o coração de uma cereja.

    Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos (1948)

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